Paul´s Blog

Informações Inúteis do dia-a-dia

Se seu filho tem aulas de religião, cuidado

Há alguns dias a Isabela, minha filha de 9 anos, veio me pedir ajuda em um trabalho de “Ensino Religioso” sobre o Povo Hebreu; Os textos que ela tinha para apoio, bem como os referenciais de internet que ela havia encontrado, eram pesados, chatos e tornavam o estudo da matéria entediante e trabalhoso; Quase um castigo.

Vejam: Ela estuda em um colégio Jesuíta particular em Curitiba que, em tese, deveria incentivar o pensamento crítico, criatividade e instigar a curiosidade e avaliação lógica. A matéria “Ensino Religioso” deveria seguir as mesmas premissas, ensinando sobre todas as religiões de forma isenta, reforçando tais premissas e servindo de apoio às outras matérias. Era óbvio que isto não estava ocorrendo.

Sentei com a minha princesinha e começamos a conversar sobre os Hebreus; Usei uma linguagem informal, mais atual, ressaltando alguns ‘ganchos de atenção’ para me sintonizar com o interesse dela. Rimos muito e consegui prender sua atenção. Ao final, com os olhos brilhando ela correu pra fazer sua redação; Tarefa em que ela se dedicou com afinco até 1:00am. Encorajei para que se expressar de seu modo, de maneira informal e inteligente. Enquanto trabalhava no computador, vez ou outra ela me perguntava um nome ou algum detalhe específico.

Hoje a noite a encontrei triste, amuada e muito quieta. Insisti para que me dissesse o que havia acontecido e ela, quase envergonhada, me entregou a correção de seu texto pela sua “professora” de religião. O texto de que ela se orgulhava, e que realmente estava bastante bem colocado e estruturado (colei abaixo), veio completamente pintado de vermelho, cheio de críticas que foram feitas pessoalmente também. Ao que parece, se ela não escrevesse com ‘o devido respeito’, teria uma nota baixa pelo seu esforço. Infortunamente a preceptora confundiu doutrinação com educação religiosa.

Uma das críticas e razões foi o fato dela escrever que os Hebreus “se ferraram” quando saíram de Canaã e foram para o Egito. É interessante notar que foi exatamente o que aconteceu, pois a origem do termo “se ferrar” quer dizer “ser colocado sob ferros ou ferrolhos”, que era o que acontecia quando um povo era submetido pelo outro (e de onde surgiu o termo, que se perpetua até hoje). É revoltante perceber que, muitas vezes, ao invés de regarem o conhecimento e curiosidade de seus alunos, alguns educadores fazem justamente o contrário.

Abaixo o texto da Isabela… 

Redação sobre o Povo Hebreu – 5ª série C / Colégio Medianeira

Os Hebreus são os antepassados do povo judeu. Foram bastante perseguidos durante toda história, se ferraram bastante, todo mundo queria bater neles e, até hoje eles estão brigando lá no oriente médio.

Dizem que num belo dia Abraão estava passeando alegremente, adorando vários Deuses diferentes (na época ele era politeísta) quando Deus apareceu e lhe deu uma grande bronca. Parece que Ele disse algo como: “- Abraãooo!!!! Pare de adorar vários deuses e adore só Euzinho aqui. E vá para Canaã (que era um lugarzinho meio chato e sem muita coisa pra fazer, que hoje se chama Palestina, que continua chata e sem muita coisa pra fazer).

O tempo passou e Abraão teve um filho chamado Isaque, e Isaque teve um filho chamado Jacó. O Jacó, que era neto do Abraão, teve 12 filhos, que fundaram as doze tribos que formaram o povo Hebreu. Parece que o Jacó andou brigando com um anjo e, depois disso, seu nome foi mudado para Israel… Mas isto é uma outra estória.

Bem, depois de um tempo as coisas começaram a ficar chatas em Canaã e o povo todo resolveu procurar um lugar mais legal, divertido, com mais comida e tal. Todo mundo fez as malas e foram passear no Egito… Mas foi uma furada: Assim que chegaram foram escravizados pelos Faraós e ficaram arrastando pedra, servindo cafézinho e fazendo um monte de coisas desagradáveis por uns 400 anos.

Então houve uma profecia de que uma criança iria libertar os Hebreus e o faraó, que não queria perder seus escravos, mandou que todos os bebês meninos fossem mortos pelos guardas. A mãe do Moisés, que não era boba nem nada, colocou seu filho numa cesta e o soltou no rio para que não fosse pego pelos guardas malvados; Por sorte as filhas do Faraó acharam o Moisés, que foi criado como Egípcio (Mot Tsés quer dizer filho das águas em Egípcio). Por sorte a mãe de Moisés acabou ficando como babá, sem que ninguém soubesse e mostrou o quanto os hebreus sofriam e que era errado que eles fossem escravos.

Depois de arrastarem muitas pedras e de servirem muitos cafezinhos os hebreus fugiram, liderados por Moisés, que no começo se mostrou um excelente fujão: Até conseguiu fazer com que os Hebreus atravessassem o mar vermelho a pé, pelo que dizem. Mas depois parece que ele se perdeu e o povo hebreu ficou andando pelo deserto por 40 anos! Neste período Deus mandou umas tábuas com os 10 mandamentos, que estão na bíblia, para que Moisés tivesse o que fazer e para organizar o povo que começava a ficar impaciente. Quando Deus viu que este povo todo estava perdido há um tempão, resolveu indicar o caminho da terra prometida pro Moisés, que tinha um senso de direção horrível. Foi assim que os hebreus, quase 500 anos depois, chegaram no mesmo lugar de onde tinham saído.

Depois disto o lugar cresceu, o comércio se desenvolveu e o povo começou a prosperar. Um dos reis mais famosos desta época foi o Davi, que transformou Jerusalém num centro religioso. O filho de Davi se chamava Salomão (não confundir com salamão) e fez o lugar crescer ainda mais mas, quando morreu, as tribos se dividiram em dois reinos: O Reino de Israel e o Reino de Judá.

Muito tempo depois os Babilônios invadem Israel e os Judeus tem que fugir. De novo.

Depois os romanos invadem a Palestina e os Judeus tem que fugir. De novo. 

Aí, espalhados pelo mundo, os Judeus começam a ser perseguidos na Europa. Na segunda-guerra mundial o líder pirado dos Alemães resolve matar todos os Judeus e os que não foram colocados em fornos tiverem que fugir. De novo.

Daí os Judeus tiveram uma grande idéia: Iriam fazer uma cidade onde pudessem morar juntos, de novo. E iriam voltar para Palestina, de novo. E iriam criar um país lá, que chamariam de Israel (em homenagem a Jacó (o cara que tinha um montão de filhos e brigava com anjos). Mas, milhares de anos depois, parece que já havia um país e gente morando por lá; Hoje em dia este pessoal está tentando expulsar os Judeus… De novo.

 

 
Atualização: Postei este mesmo desabafo no facebook e houve uma repercussão bastante grande. De fato, a melhor parte foram os comentários, que vieram as centenas e a publicação serviu para muito mais do que uma catarse. Abaixo coloco o mesmo agradecimento que coloquei na publicação original em minha página: 
 
  • Amigos, muito obrigado! Estava até há pouco com a Isabela, que completamente sem estímulo e triste, havia ficado o dia inteiro sem conseguir escrever uma linha sequer do trabalho que a professora havia mandado refazer. Chamei-a para sentar ao meu lado no sofá, disse que sua redação tinha sido excelente e que ela havia resumido muitíssimo bem o assunto. Ao que ela respondeu algo como “..vc só diz isto pque é meu pai… Eu só escrevo besteiras.”.

    Foi então que abri meu laptop e disse “bem meu amor, não sou só eu que gostei de sua redação. Veja isto”: Então abri esta publicação no facebook e lhe mostrei. Foi mágico! Foi uma delícia ver seus olhos arregalados, a surpresa e a felicidade a cada curtida, comentário (que ela fez questão de ler, um a um,e várias vezes) e os compartilhamentos (“papai, as pessoas compartilharam mesmo meu texto??” :-D)

    A cada linha, letra, segundo eu via uma felicidade que só a auto-confiança e auto-estima podem trazer. Ela subiu somente há pouco para dormir, feliz, leve e novamente inspirada. Não cabe em meu peito uma maneira suficiente de lhes agradecer !

    Hoje ela aprendeu mais uma lição, bem mais legal do que a história dos Hebreus.
    Agradeço imensamente a todos

    O que vocês fizeram anulou o efeito negativo potencial de uma professora mal preparada, devolveu a confiança e impulsionou ainda mais uma futura grande escritora. E isto não tem preço. (“enquanto escrevia escutava ela contando, do banho e em voz alta para a irmã, que um mooonnteeee de gente gostou do que ela havia escrito”) 

  •  

 

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abril 30, 2014 - Posted by | Uncategorized | , ,

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